segunda-feira, 26 de março de 2018

Passear em dia "bravo" de mar e vento

No passado sábado depois de ir abastecer a minha viatura, dei comigo a fazer um caminho "torto" até casa. Não tendo itinerário pré estabelecido, segui sem rumo, talvez buscando a voz do mar lá para as bandas de Santa Rita ou Porto Novo. Batendo asfalto, seguindo ao gemer do vento que tomava vertical e horizontalmente todo o meu ser (e a  viatura), dei comigo em A-dos-Cunhados. Parei. Ali baloiçavam pedras, chão e espaços, pelo que decidi não ficar. Sobreiro Curvo, cruzo nas Paradas e tomo a estrada que segue de Palhagueiras até Penafirme.
Juro que não era minha intenção desenhar moinhos de vento, "gigantes" que ao vento enchem mar e terra. Mas aconteceu, pois no primeiro ressurgir de paisagem, em vertical nostalgia atirado contra a luz do horizonte, ali estava um, à espera que o tomasse entre os meus dedos.
Aqui esboços surgem, um e logo outro (o primeiro soando ao meu solitário ouvido "que terror"), no  interior do baloiçante da viatura, que teimava em querer voar dali.

Não sabia como se chamava aquele lugar, mas a Internet é poderosa e logo tomando como referência os corpos arquitectónicos mais próximos (Campoeste), a consulta resultou: Alto das Estiveiras (A-dos-Cunhados).
O mar, a luz e o vento impulsionaram os meus passos e logo mais à frente, outro moinho mesmo à beira da estrada, desamparado e preso no espaço verde da Rua do Chofral (Casal Chofral, A-dos-Cunhados)
Parei junto ao Seminário de Penafirme, certa de "meter mãos" à fachada da igreja, edifício que penso ser de finais do século XVIII, mas o baloiçar dos pinheiros e eucaliptos por "cima da minha cabeça" traziam ao meu ouvido o falar do vento e o terror do perigo.  
Segui para a praia de Santa Rita e lembrei-me das ruínas do antigo convento de Penafirme (Convento Velho) e daquelas pedras desnudas que respiram ainda cintilantes, prisioneiras das dunas.
"Marrando" contra ornatos, janelas e curvas de antiquíssimo abandono, saiu qualquer coisa assim, que mais parecem fantasmas mortos, quebrando as folhas brancas do caderno.

No mar, as ondas quebravam pela maré cheia, e o Alcabrichel bailava secreto e barrento, pelo que decidi não parar. Seguia agora o curso doutro concelho. Na Maceira, deixei Torres Vedras e logo entrei na Lourinhã por Ribamar. A praia de Porto Dinheiro chamava-me lá do fundo. A espuma das ondas florescia pelas falésias, o poder do vento tremeluzia a viatura e ali num golpe rápido de olhos, avisto ao longe outro moinho. 

Os  horizontes frios da paisagem ditaram o meu virar costas ao mar e subindo até à Atalaia, passando por Marquiteira, Pregança, vislumbrando aqui e ali, ao longe e até perto, mais de uma dúzia de moinhos, só parei quando me encontrei segura, já perto do meu "cais de embarque e desembarque", a Marteleira, onde resido. Mas antes de descer a colina, um último moinho apela ao meu olhar e às minhas mãos e pede-me que lhe dê justa forma ao seu corpo.
Diferente, de "cinturas amarelas", lembra a cor do cereal que outrora moeu, repousando num terraço familiar como que despontando à eternidade.

12:00 Hora de ir tratar do almoço...

P.S. E como isto já vai longo, dispenso as fotos, que permitiram  já "no meu porto seguro", dar cor e luz aos riscos feitos nos locais, imagens dignas, umas e outras, quando  "à deriva" decidi viver e desenhar com mau tempo.



6 comentários:

  1. Fantasticos Moinhos Parabens (não sei quem é o autor)

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  2. que belo post Ana. Bela composição entre texto e desenhos. Ontem também andei assim a vadiar :-)

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  3. Gostei muito de ler o relato do teu passeio desenhado. E os moinhos sempre a atrairem-te 😍

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  4. Muito obrigada pelas vossas apreciações. Apesar do frio e vento, foi muito inspiradora esta manhã. Ainda bem que gostaram.

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